segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

talvez fosse a cabeça oca ou o soar do sino em 21. assim andava com olhar fixo, ora no horizonte. faltava palavras casaco de lã músculos rijos óculos de sol. faltava bom humor mp3 frivolidades e um saco bem grande. sentia-se perseguida: despertadores, refeições, tantos plásticos, sódio glúten carboidratos em tudo o que há. tinha ócio rabecão maçã verde ervas finas, outras não. vinho tinto sempre tinha . essa andava de garganta seca, talvez o frio talvez o excesso de fonema. talvez fosse a falta em crer, o grito contido, as tardes de domingo, a miss universo o brócolis a terapia. talvez fossem suspiros presos. ou aqueles orgasmos interrompidos pelo olho do cú do papa. talvez esses espaços de pouca música e muita tv. talvez a culpa no outro. assim esse falar baixo de língua solta. o frio na barriga. ainda um sentir manso com as tempestades. o eu (des)encarnado. esta metamorfose ambulante. este rosto exposto e um riso contido. talvez tudo que se deu na travessia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

trintaecinco

acordar cedo - tem dias que não
por vezes a felicidade - mas é raro
raro como dinheiro de sobra
raro como disposição pra mão de obra

música sempre.  
paixão (amadora) por fotos
café para enfrentar a manhã e a tarde também 
calçados gastos e muito chão!

isso e ócio. 

olhos de mar
cabeça de nuvens
pés de meio de mato

tranquila e infalível.

três gatos:
ozzy, o cinzento
xerox, o gato quase branco (ilegível se fosse texto)
e Bitter, o preto.

trintaecinco e (quase) nenhuma celulite.

cnpj para dar mais autonomia
ano novo no Uruguay
dinheiro (suado) pra viagem
cotidiano de lagoa


nenhuma nostalgia de idades anteriores:
é a minha segunda infância, o melhor!








segunda-feira, 7 de abril de 2014

¨Viver é muito perigoso... Querer o bem com 
demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo 
se querendo o mal, por principiar. Esses homens! 
Todos puxavam o mundo para si, para o concertar 
consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas 
dum seu modo.¨

Grande Sertão Veredas 
Guimarães Rosa

sábado, 5 de abril de 2014

deves amar a argila em tuas mãos;
deves amar a tua areia até a loucura
e se não for assim, não comeces o que será em vão: 
só o amor ilumina o que perdura.
só o amor converte em milagre o barro.

deves amar o tempo das tentativas.
deves amar a hora que nunca brilha.
e se não for assim, não pretendas tocar a certeza:
só o amor engendra maravilha.
só o amor consegue incitar os mortos.

na voz de
sílvio rodrígues

 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Das trocas de ano

"Quantas trocas de ano vivemos e tudo continua como sempre foi? Datas são ilusões, dias, meses e anos são um truque para suportarmos as dores e os gozos do tempo, esse implacável. Números impostos pela hegemonia cristã medieval para conseguirmos situar perdas, nascimentos, mortes, intempéries e nossas idiotinhas e pequeninhas conquistas humanas. Não é mera coincidência que o calendário que nos pauta surja com o mundo mercadológico que tanto torna homens e mulheres vis. Na prática ainda somos romanos, pois tudo começa mesmo em março, com Marte, o belicoso que coloca a máquina a rodar. No fundo ainda vivemos Roma com suas estradas cheias de pedagios, não é Ricardo Zordan? Não passamos de bonecos treinados para combater em troca de algum bônus. Se treinados para treinar viramos donos, o que no fim é até pior. Os domínios que tentamos ampliar nunca serão nossos, pois pertencem a essa abstração que nem sempre paga o esforço que fizemos, mas pela qual, apesar de tudo, damos o melhor de nossas vidas. Correndo o risco de acabar no circo para ser comida de leão. E vamos lá, cuidar do imposto de renda. Se eu não tivesse lido os NÃO gritados nos séculos anteriores eu acharia que seria possível um grito céltico para começarmos a viver outra coisa. E línguas foram arrancadas, mulheres e mulheres torturadas, tantos que tentaram dizer CHEGA queimados vivos. E grandes pensadores não conseguiram ficar nas Universidades e quem mais gritou acabou seriamente medicado. Como quase ninguém quer saber de nada disso e pensar sobre a Terra e o que estamos fazendo com ela é conversa que não agrada as pessoas que se preocupam com o número de espumantes e com brincos e com o estofamento do carro, vamos esquecer, mergulhar em águas profundas, se agarrar nos paredes dos abismos que ainda não foram cercados, beijar aquela boca por quase uma hora, escalar montanhas que existem somente para quem se importa, jejuar por vários dias, andar de bicicleta, caminhar quilômetros, tomar litros de Santo Daime, esperar que nos tirem desse planeta ou rezar para que todos comecem a ver o tempo, e a terra que o testemunha, de outra maneira."

Paola Zordan