segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Disseram-lhe que para escrever é necessário o olhar de Orfeu, metáfora usada para o gesto de voltar-se para trás, para o texto escrito e encará-lo sob o risco de perdê-lo. Quem tem medo de olhar o próprio texto? No jogo poético de Orfeu, sua lira encanta os seres corpóreos e incorpóreos, seduz como poeta e como bom escritor. Orfeu entretém bestas em cortejos, cadencia o trabalho dos remadores da Nau de Argo e, com sua voz, ofusca o canto das sereias que seduziam todo navegante. Orfeu flerta o dia e quer ser amado, como qualquer lireratura maior; e você sabe que bons textos e essa literatura repousam superfície limpa dos arquivos virtuais. Num sobressalto você percebe que a escrita se esquiva de você como Eurídice, desaparecida em sombras, esquiva-se dos dias e todo cotidiano com Orfeu. E é somente com a recusa de Eurídice que aturdida você intui que para escrever é necessário estar em sombra com Eurídice. Míope, você tenta enxergar na claridade do dia (sob a luz de Orfeu) e resiste: todos disposto a escrever estão numa espécie de pequena luz, se alimentam de lampejos quase imperceptíveis, escrita que acontece em pequenos clarões, em feixes de luz e frestas sombrosas de infernos pulsantes. A imagem que lhe ocorre é a impossibilidade de uma grande luz, que ilumina apenas alguns bons textos. Você conclui que todos dispostos a produzir através da escrita estão, nauseadamente, na pequena luz. Escrever com Eurídice é escrever na profundidade necessária para um “gênero órfico de vida” que consiste em você juntar fragmentos em vida inventados em tumultos de palavras que dispostas em frases, cadenciam textos com predileção para nebulosidade das sombras onde desvios devaneios aparecem e desaparecem como Eurídice esquivando-se do dia com Orfeu. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

CaMINhOS

E você ainda me pergunta: aonde é que eu quero chegar, se há tantos caminhos na vida e pouquíssima esperança no ar! E até a gaivota que voa já tem seu caminho no ar! O caminho do fogo é a água. O caminho do barco é o porto. O do sangue é o chicote. O caminho do reto é o torto. O caminho do bruxo é a nuvem. O da nuvem é o espaço. O da luz é o túnel. O caminho da fera é o laço. O caminho da mão é o punhal. O do santo é o deserto. O do carro é o sinal. O do errado é o certo. O caminho do verde é o cinzento. O do amor é o destino. O do cesto é o cento. O caminho do velho é o menino. O da água é a sede. O caminho do frio é o inverno. O do peixe é a rede. O do pio é o inferno. O caminho do risco é o sucesso. O do acaso é a sorte. O da dor é o amigo. O caminho da vida é a morte!



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015



Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

[O Guardador de Rebanhos]

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

talvez fosse a cabeça oca ou o soar do sino em 21. assim andava com olhar fixo, ora no horizonte. faltava palavras casaco de lã músculos rijos óculos de sol. faltava bom humor mp3 frivolidades e um saco bem grande. sentia-se perseguida: despertadores, refeições, tantos plásticos, sódio glúten carboidratos em tudo o que há. tinha ócio rabecão maçã verde ervas finas, outras não. vinho tinto sempre tinha . essa andava de garganta seca, talvez o frio talvez o excesso de fonema. talvez fosse a falta em crer, o grito contido, as tardes de domingo, a miss universo o brócolis a terapia. talvez fossem suspiros presos. ou aqueles orgasmos interrompidos pelo olho do cú do papa. talvez esses espaços de pouca música e muita tv. talvez a culpa no outro. assim esse falar baixo de língua solta. o frio na barriga. ainda um sentir manso com as tempestades. o eu (des)encarnado. esta metamorfose ambulante. este rosto exposto e um riso contido. talvez tudo que se deu na travessia.